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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
A menina Isabelinha terminou de colocar o fecho no vestido da freguesa, tirou os alinhavos, fez uma vistoria final, praticamente desnecessária, porque a menina Isabelinha era muito perfeitinha, e olhou lá para fora. O movimento era pouco, algumas pessoas vagueavam frente às lojas e os escassos clientes do supermercado apressavam-se a ir preparar o jantar.
Faltava mais de meia hora para o encerramento do Cantinho da Costura e a menina Isabelinha ligou sorrateiramente o telemóvel por baixo da bancada e foi dar uma olhadinha no seu facebook. A sua amiga Shirlei, que descobria sempre as novidades mais engraçadas, tinha lá na sua página uma coisa extraordinária sobre caracóis. A menina Isabelinha descobriu, abismada, que havia um grupo de pessoas que defendia fervorosamente os direitos dos caracóis. Leu tudo, num misto de incredulidade e riso controlado - que o seu subconsciente, mesmo distraido, estava sempre atento à chegada inopinada da patroa.
Mas achou tão patusca aquela situação, que por duas ou três vezes não conteve uma gargalhadita marota. De repente parou de rir e sobressaltou-se. A menina Isabelinha era adepta fervorosa de um fim de tarde bem passado, que incluisse um pires de caracóis e uma cerveja fresquinha. Que é lá isso de não se comer caracóis? E que diabo, com tantos bichos comestíveis e tão maiores que os caraçóis, porque se lembraram precisamente deles os amigos dos animais? Ena pá! Querem lá ver que a coisa não tem a ver com tamanho? Quanto mais matutava, mais cuidava que isto ainda podia ser uma ideia perigosa. Se a coisa pega, cismou, daqui até à criminalização do mata-moscas ou mesmo à abolição do antibiótico vai a distância um fósforo.
Depois leu mais um pouco e o seu coraçãozinho apaziguou-se. As reacções e comentários eram uma galhofa pegada. As piadolas multiplicavam-se, das claramente inofensivas às mais ordinaronas.
Cogitou por mais uns instantes e veio-lhe à ideia, nem sabia bem porque, aquele caso há uns tempos em que um cão matou um bebé. Lembrou-se de ter lido e visto mais de cento e vinte sete testemunhos de pessoas que defendiam os direitos do Zico e criticavam ferozmente o seu abate. Sobre a criança não se lembrava de ter lido grande coisa. Também não se recordava do seu nome.
A menina Isabelinha tinha a noção de que não era a mais inteligente das pessoas, muito pelo contrário: as mais das vezes achava-se muito estúpida, e punha sempre, mas sempre, a hipótese de não estar a ver bem as coisas. Mas sempre que se deparava com questões como esta dos caracóis, a menina Isabelinha perguntava-se se o maior problema das causas não seriam os seus defensores.